Pecora Nera

 

BaalphegorEncruzilhadas Típicas Portuguesas

 

        Se a feijoada à transmontana em nada deixa a desejar ao cozido à portuguesa - e este é um povo de enchidos que, repito, em nada nega aos frutos do mar (para exemplo, como quiserdes, as eirós primeira palavra do hino da FozIber), já ninguém sáb'u'ino... -, enquanto a cabidela enfrenta a bordalesa tal como as migas algarvias tentam suplantar as alentejanas, agora ambas com a versão de la-bial (pensamos tratar-se de um termo L'angue D'oc), do para-nãsêtanmole (este seguramente é alentejano) e a carne de porco à alentejana que se come em todo o lado menos no Alentejo - não têm cheta para isso - se debate pela primazia em relação aos rojões, tal como a sardinha espanhola se muta em conserva portuguesa nas usines da Andaluzia... A pécora - ovelha componente da bordalesa - vai exibir os quatro caminhos da libertação por encruzilhadas, montes, cemitérios e mares (nera = negra), porque o lanzudo tudo pode nas quatro encruzilhadas... ele move-se mais em pontas de 'pé-de-cabra' do que nós com toda a planta.

 In Diário de Yhonathannah "Rasgos da In-Felicidade d'O Monge"

 

«Por causa da sua anterior reencarnação», retorquiu o doce irmãozinho Vacas aos desgraçados Saraivas que pensavam tratar-se de um mal muito bem feito a pedido d'uma vizinha que constantemente, quase todos os dias, se deslocava ao Lumiar a uma Dulcineia muito famosa filha de pai transmontano e mãe cigana apartada, de certa forma, da sua comunidade por ter casado sem consentimento como se já não bastasse a gravidez antecipada fruto das actividades sexuais diárias por detrás duma colina no matagal entre Odivelas e a Pontinha.

« Bom... por isso também », retorquiu Vacas, « mas pela vossa anterior reencarnação é que foram morar ao pé dessa cabra que só sabe coscuvilhar e morrer de inveja pelas mais pequenas coisas que os outros tenham... cá se fazem cá se pagam ». Madalena Saraiva sentia-se muito inconfortável mas tinha sido o marido a ter a ideia de recorrer ao Vacas por aconselhamento do compadre que só lhe afirmava « eu se fosse a ti ia à bruxa ». Notando o desconforto de ambos Vacas baralhou novamente os naipes e dispô-los sobre a mesa meticulosamente depois de previamente cortados por Madalena. « Ó carago, aqui a dama de ouros aparece encostada a um rei de paus... », pausou estrategicamente, baixou a cabeça calva enquanto com as mãos alinhava para trás os longos cabelos laterais.

« Bom realmente aconteceu um incidente no nosso casamento, uma grande discussão entre mim e o meu marido provocou uma separação domiciliar e foi nessa altura que eu o encornei, mas foi só com esse e umas duas ou três vezes... de resto tenho-lhe sido sempre fiel... e contei-lhe... ele sabe que não lhe escondo nada... », o marido esfregou nervosamente a cara e bufou ligeiramente afirmando «foi aquela cabra que provocou tudo isto, até eu neguei à minha mulher ter tido outra mulher, mas aí tinha razão... não andava com nenhuma, o filho do taberneiro é que me estava sempre a atentar o juízo, mas também só lhe arreei umas quatro ou cinco vezes, o resto fez ele com a boquinha... no cu nunca mais. »

« Pois é! » retorquiu o irmãozinho, « por isso o rei de ouros s'ajunta ao valete de copas... mas que coiros... bom, é da reencarnação passada... isto agora só lá vai com uns trabalhinhos e os irmãozinhos filhos do Diabo », benzeu-se, «só lá vão com dinheiro.»

« Por Stº Antoninho nosso padroeiro a quem faço novenas sem cessar, intervalando sempre os três dias obrigatórios (as velinhas são sempre novas - de cera mortuária - e queimam até ao fim), pelas alminhas presididas pelo doce irmãozinho padre Cruz e o nosso santinho Dr. Sousa Martins... quantas Salve Rainhas e Credos em cruz temos de rezas... ». Madalena e Francisco Saraiva já suavam só de pensar nas exigências dos queridos irmãos diabinhos... « é que só lá vai com encruzilhada e cemitério numa madrugada de terça-feira, aí por volta das... digamos meia noite e meia iniciamos para estar tudo terminado antes das três e irmos fechar o trabalho ao mar. »

Sempre estratégico, Vacas ainda acrescenta «É preciso aguentar ou desistir já!».

 

 

Lá fora o vento rugia numa velocidade ameaçadora, relâmpagos e trovões denunciavam longa matéria para complexo de mea-culpa « O sexo é um rosário, ganha-se-lhe o vício... muitas rezas parecem permitir a voracidade e quem ganha com isso? Sim! quem ganha com isso senão o demo que ambiciona a todos amarrar... », Vacas inebriava-se nesta revelação; também as horas eram a da costumeira verborreia em que os escribas, já cientes de facto, sabiam que lhes esperava longos ditados do Além... « Se ao menos o gajo se tivesse dedicado à escrita automática... », bufava Lino para o Borrego, « bem que m'esforcei com a irmã Lucinda para o levar ao Centro, mas o gajo recebe proibições do diabo.» Lino e Borrego resfolgavam e benziam-se, as esferográficas já lhes escorregavam dos dedos e o papel! por escasso já utilizavam os restos: embrulhos, guardanapos e toalhetes de cozinha espalhados por toda a sala. «Merda, um lenço de nhânha! já ia escrever nesta porra.» Vacas grita, Borrego e Lino reduzem-se ao silêncio «a desamarração, vejo a desamarração, esses caragos têm grilhões até aos... bom, até ao inferno e há que ajeitar as coisas com este nosso irmãozinho cabrudo. Têm tudo escrito? », « Sim!! » zurraram Lino e Borrego como que num cântico litúrgico. Todos recolheram ao sono merecido de mais um árduo dia de colheita de almas para... « Adeus » gritou Lino, « bye bye » larilou Borrego, « Vai com deus » respondeu-lhe o doce irmãozinho Vacas, « Requiem In Pace! » retorquiu uma Voz... estes ambientes têm mistérios.        A manhã surgiu chuvosa; era daquelas manhãs em que até o céu chora, porque já antevê as obras dos homens de-boa-vontade - no ambiente a que nos reportamos até a atmosfera é bruxa. Borrego, alquebrado pelas exigências secretas da noite, cantarolava com grande alegria enquanto cozinhava os acepipes para a primeira e fundamental refeição do dia para quem sabe que o árduo não vai começar mas sim continuar.

Ukobach«Pão, ovos e fiambre fino pró meu Lino,

leite e croissant com natas pró irmãozinho Vacas

e, p'ra mim, o prazer de lhes levar à cama

um pequeno almoço assim...

só quem sabe é q'ama.».

 

Ainda o repasto iniciara e já longa bicha de gente - dezenas de pessoas angustiadas -, aguardavam à porta desembuchando cada uma os seus problemas: como os do passado tinham sido resolvidos, como novos tinham surgido... enfim, tal como nas longas filas das emergências hospitalares, ou dos postos de saúde(?) enquanto se espera a consulta do médico de família. Borrego, um autêntico contraforte a que o nome faz juz, abre trombudo a porta da casa posicionando as pessoas por ordem como um bom chefe de manada. Os Saraiva lá estavam para a segunda consulta e eram os primeiros quer por marcação quer porque desde as cinco da madruga se enfileiraram quais cavaleiros da fé.

        « Um litro e meio de mijo de vinte e quatro horas de cada um em frascos independentes e devidamente rotulados, velas brancas de cera mortuária, digamos, dez por cada um, incenso e mirra (dois saquinhos de cada), duas febras ou costeletas de porco, o tamanho não interessa e dez quilos de carvão, seis chumbadas de pesca de cem gramas cada, vinte e dois frascos de álcool pelos dois e dez caixas de fósforos de cozinha ». Vacas exibia um misto de vivacidade e debilidade, um significativo cansaço invadiu-o logo nesta primeira consulta d'aquele dia. Parecia estar de certa forma doente ou, talvez, no início de um dos múltiplos transes a que os Saraivas já se costumavam a habituar « trazei também roupas interiores usadas q'eu vou fazer água de benzedura... agora ide, ide, por hoje já chega ». Pela primeira vez Madalena e Francisco Saraiva observaram a debilidade do irmãozinho Vacas e imaginaram o esforço que o vidente despendia para o bem das pessoas e... meu deus, quantas ainda para ouvir e tratar, a sala e o corredor abarrotava de gente, uns choravam, outros cabisbaixos, uns coçavam-se, muitos inchavam e praticamente todos arrotavam... e os que caíam no chão esperneando e babando-se... « morre p'raí merdas... isso, baba-te mas vais limpar com a tua língua o meu chão, sempre é melhor do que onde a costumas meter... estás a chorar ou ainda a vires-te?... » Vacas recobrava assim e era notório que algo do além o repunha dessa rápida forma. Os Saraivas impressionados com tamanho esforço e fraqueza colocaram dez mil escudos no profundo bolso da bata branca do irmãozinho como apreciação e gratitude « tá bem, ide cabronetes e trazei-me mas é o material, quero cá tudo depois d'amanhã senão... ai de vós... ». A doçura de Vacas brilhou no coração dos Saraivas, era um milagre, seguramente estavam nas mãos do vidente certo.

 

 

Tudo se realizou com total sucesso os Saraivas desamarrados rejubilavam de alegria, fé, esperança e caridade... « então não é q'a minha mãe já consegue ler as legendas das telenovelas brasileiras e o meu pai... que disparate, esse já morreu... ou serão venezuelanas... ». Se Madalena efusiva falava como uma pregadora pentecostal - arrotava, mas ainda não falava línguas... bom, já praguejava com a doçura do irmãozinho Vacas (este tipo de linguajar português apanha-se rápido) -, ela e Francisco contribuíam no pleno das suas posses mas sempre avisados e admoestados pelo vidente que os chegava a não permitir tais esbanjamentos porque « com tanta putanhice ainda tudo se encontrava no início ».

        Vacas perante o oráculo quedou-se circunspecto, apertava o queixo e como sempre baixou a cabeça coçando os cabelos residuais no topo da careca quando a determinada altura se levantou repentinamente - a tempo estudado e improvisado, fruto da experiência. Concisa e solenemente afirmou perante a imbecil apatia dos pecadores «tragam fotografias vossas, da puta da vossa vizinha, do cabrão da tasca, dez quilos de velas de cera mortuária de trinta centímetros, flores vermelhas, brancas e cravinas... arranjai para vós também uma oferta de flores em arranjo de florista para pessoalmente as oferecerdes.»

XaphanMeditou por um instante... depois, como que em transe saltou e «os vossos bolsos devem levar moedas brancas, uma galinha de qualquer cor pode servir... o resto das iguarias para a refeição dos nossos irmãozinhos da encruzilhada logo as compraremos aqui.» Pausou como que em reflexão e exclamou «Ah, adquiri bagaço, de preferência marrafo, quatro corações de boi, três pares de espelhos à dimensão das fotografias, dois novelos de linha banca de tricotar n.º 3 ou 4 e três cebolas... o trabalho para ser oferecido necessita de uma dádiva de cerca de trezentos contos... talvez mais... bom, logo acertaremos.»

Francisco Saraiva já com a cabeça prostrada sobre os braços cruzados apoiados sobre a mesa, praticamente desmaiado, ainda ouviu Madalena assoberbada de fé «quem pede esta quantidade e quantia com tanta certeza é porque sabe o que faz e o que há a fazer... combinado!!»

«Uma novena de missas a mil escudos na vossa paróquia ou de preferência na capelinha do Senhor dos Amarrados...», mas vendo a postura de Saraiva exclamou «ó cabrão agora é que te deu para amouxar os cornos... até ao dinheiro estavas bem vivinho mas agora deu-te p'ró transe... este gajo deve pensar que é vidente... acorda ó puta!». Isto foi afirmado por Vacas, o irmãozinho, no geral e mais solene silêncio de largas dezenas de pessoas que ainda estavam para ser consultadas e tratadas.

«Quantas mais melhor... é não é?» afirmou Madalena Saraiva, mas Vacas exibindo-se indiferente a tudo e a todos afirmou «não exagerem qu'isto ainda é o início. Aliás, se não me engano, já vos tinha dito isto antes...» e (nós) o narrador, é testemunha de que tal consta aí atrás neste texto.

 

 

Bom, também a raia - de preferência no período da xica da fêmea -, o tamboril, o safio, a bexiga do xarroco... a xaputa parece-me que está livre destas andanças, mas não se sintam descansados porque se com o sapo - não o net - se fazem trabalhos, os pescadores mediterrânicos depois de cuidadosamente tirarem as tripas e as bexiga da sardinha, de as limparem e de as lavarem de todo o esterco, mijam-lhes em cima para as porem no anzol e pescarem o peixinho do dia-a-dia p'rà família e amigos.

In Diário de Yhonathannah "Rasgos da In-Felicidade d'O Monge

*

Profundamente desejámos sempre ter a hipótese de um link que nos conduzisse a esta árdua matéria sem a vituperar, no sentido de que todo este texto assenta em factos reais fruto duma investigação que se estendeu por nove anos tendo eu - o narrador -, residido em muitas destas casas vinte e quatro horas por dia. Claro que os nomes foram recreados e as regiões omitidas menos duas, no início deste texto, que são verdadeiras pela impossibilidade de identificarem a querida e doce Dulcineia. Desta forma consegui, finalmente, o modo como - porque a matéria me ardia nas mãos, promessa-é-promessa -, exibir os catorze passos da encruzilhada e

« 2 antes que escureçam o sol, e a luz, e a lua, e as estrelas, e retornem as nuvens, depois o aguaceiro; 3 no dia em que trepidam os guardiões da casa, e se tiverem dobrado os homens de espírito e tiverem cessado de trabalhar as moedoras por se terem tornado poucas, e as damas olhando pelas janelas o acharem escuro; 4 e as portas que dão à rua tiverem sido fechadas, quando o ruído da moenda fica baixo e a pessoa se levanta ao som de um pássaro, e todas as filhas do cântico soam baixo. 5 Também, ficaram com medo do que é meramente alto, e há terrores no caminho. E a amendoeira carrega flores, e o gafanhoto se arrasta, e o fruto da alcaparra rebenta, porque o homem caminha para a sua casa de longa duração e os lamentadores têm marchado em volta na rua; 6 antes que se remova a corda de prata, e se esmague a tigela de ouro, e se quebre o cântaro junto à fonte, e tenha sido esmagada a roda de água para a cisterna. 7 Então o pó retorna à terra, assim como veio a ser, e o próprio espírito retorna ao [verdadeiro] Deus que o deu.»

8 "A maior das vaidades!" disse o congregante: "Tudo é vaidade."»

In Bíblia, Eclesiastes 12: 1 - 8

 

Esta descrição da decrepitude do ser está o máximo!

Ora bem, o nosso irmãozinho Vacas tem entre mãos um dia muito longo; normalmente nunca se leva à encruzilhada uma pessoa ou um casal. Implica uma ritualística iniciada sempre por uma procissão e esta necessita de, pelo menos, uma boa dezena de pessoas necessitadas, fora os videntes, médiuns, assistentes para aumentar a velocidade - a corrente -, do contacto com o além e seguranças, p'ró que der e vier nas broncas da utilização violadora cemiterial.

Malphas 

« Na Segunda-feira, por volta das seis e meia da manhã, ajuntaremos aqui o material que já vos pedi e nos reuniremos para saber o resto que falta. Tudo tem que ser bem organizado porque os cozinhados têm que começar com o nascer do sol e estarem prontos antes dele se pôr, agora não se esqueçam ò bestas de se meterem nos copos ou de passarem a noite no fornicanço... quero-os todos aqui bem acordadinhos porque se não conseguirem nesse tempo e digo-vos que é muito escasso para a quantidade de pratos que têm de fazer, vai tudo fora porque não se podem comer estas ofertas e nem sequer ficar com os recipientes, pratos, copos, enfim, com nada. Depois, tenho de procurar receber nova autorização dos irmãozinhos para marcarmos o outro dia... portanto cuidado se não querem comprar tudo de novo, pelo menos por isso! » Vacas ria estrondosa e diabolicamente pelo estúpido estretor, contorcionismo e o já tão familiar bufar (agora acrescentado de arrotos como que do fundo da alma) de Francisco Saraiva « queres ver q'u cabrão também é médium... ouve lá, q'a granda boi que comeste... com cornos e tudo! ». Vacas ria, saltava e dançava ao som da televisão ligada na sua sala em altos berros... a música de Marco Paulo, tal como a de Quim Barreiros, Lenita Gentil, entre outros diamantes-pimba, animava-o ao transe... conduzia-o à indiferença, « afinal de contas aqueles caralhos semearam e só têm é de colher e tudo isto passa por me pagarem... Ai, que pagam pagam... » Vacas tinha um profundo conhecimento do género humano e sabia que muitos deles, senão todos, depois de libertados do mal - a recordação da dor, do sofrimento e de todos os tipos de pesadelos da vida é geralmente de curta duração -, voltariam à vida e a ele, por outras sacanices e pulhices mas ria tresloucadamente, arrotava, blasfemava, rodopiava, saltava, fazia macacadas e carantonhas enquanto dançava... dançava mas meditava, mesmo sabendo o que sabia sobre o comportamento das pessoas. A nobreza pelas artes mágicas exigia que tudo fosse devida e correctamente efectuado... nestas matérias uma falha é sempre catastrófica « e eu não estou disposto a sofrer por esta putalhada; eles que se fodam, eu não! Nem os doces irmãozinhos do além o permitiriam... » Vacas benzia-se e alçando várias vezes o braço e a mão atirava beijos aos céus.

*

De manhãzinha cedo Borrego atarefava-se na cozinha sempre cantarolando algo de acordo com as suas necessidades sexo-espirituais, ou vice versa; abanando a enorme e rígida bunda, esfregando o olho de vez em quando por uma comichão qualquer - sim porque estes gajos de hemorroidal é que não sofrem... as massagens não deixam o mal são os coscorões (ver El Rei Selêuco de Gil Vicente), residuais que muito se prezam em manter... fruto do amor ao próximo ou até ao próximo -, meneava com a docilidade de uma musa o seu corpanzil enquanto entoava a oração da manhã:

«Salve-Rainha,

Salta na vinha.

Enquanto dura,

Vida doçura;

Em se acabando,

Gemendo e chorando.

 

Ai, espanta e espanta,

Todos os boches na garganta;

Todo o lume nos olhos,

- Afora os meus e os do Lino

Quais réus do ladino -,

E a lenha nos cornos;

Oh leite dos colhioilos

Que escorres montes e vales,

Beijando pés de altares

Comendo meninos aos pares.

 

Cabecinha de pau,

Cabecinha de ferro,

Q'entras duro no vau

E sempre hirto no recto.»

 

Nota: Deturpações parciais de várias poesias, como a de Medos e Fórmulas Execratórias (In Cancioneiro Popular Português, págs. 91 e 92, coligido por J. Leite de Vasconcellos, coordenado e com introdução de Maria Arminda Zaluar Nunes, Acta Universitatis Conimbrigensis, 1973), serão observadas ao longo desta página.

 

 

 

Batia Borrego freneticamente as 120 g de manteiga para que ficasse cremosa e sempre batendo foi pondo aos poucos os 350 g de açúcar mais dois ovos, um de cada vez... e batia... e batia como uma negra com o pilão meneando a bunda ao bom ritmo. Agora juntava-lhe os 350 g de farinha, depois lançou num subtil movimento uma colher de café de fermento e lambuzou-se com algumas salpicadelas dos 150 g de chocolate já derretidos em banho-maria que e sempre a bater, misturava acrescentando ao já batido sem parar durante mais dois minutos até que tudo (a mistura), ficou leve. Aos pulinhos e sempre dançando distribuiu a massa igualmente por três formas de vinte centímetros de diâmetro com o fundo forrado a papel vegetal untado com manteiga e durante os trinta e cinco minutos que os bolinhos do diabo (assim se chamam), levaram (bem visto, estiveram) no forno, larilava qual soprana sem cessar, hábito já atrás por mim descrito, terminando em apoteose com o refrão:

«Bolinhos acabadinhos de fazer,

Papel retirado e, conforme o conveniente,

Cada um por cima do outro amontoado,

Apenas desentalado pela cobertura de chocolate glacé,

mais natas bem batidas e de frente.»

Nota: (In Doces Celestiais, Um Pequeno Livro Gostoso, edit. Quetzal, 1990).

 

«Q'a merda, não fosse este cabrão tão bom como sopeira e segurança já o tinha metido na alheta... ele que levasse o Lino o que falta p'raí é pessoal para trabalhar.» Vacas furibundo por toda aquela cantilena matinal dirigiu-se à cozinha apenas de cueiros «Oh meu grandessíssimo coiro, não te basta de noite resfolgar como uma bezerra no coito para me despertares com essas lengalengas solfejadas do fundo dos intestinos.» «Nã nã nã nã! Não posso crer nesta privilegiada visão... a nudez do doce irmãozinho Vacas, Ai Ai...» e, malandrosamente, Borrego passou-lhe os bolinhos do diabo acabadinhos de sair do forno por baixo do queixo «Tá bem, tá bem, mas vê lá se não te entusiasmas tanto com as orações matinais... ou seja lá o que for essa porcaria. A propósito qué do Lino, não me digas que ainda está de cu pró ar; porra temos uma longa encruzilhada na Segunda-feira exijo que os outros descansem e vocês vivem no 'fodei-vos uns aos outros...', assim que poderes acorda-me essa puta e rápido!». Lino, que na modorra com todas aquelas execrações e posteriores discussões já se encontrava mais do que desperto, atarefou-se em vestir-se e fingir lavar-se cantando - como quem há muito tempo meditava e orava -, na acantonada casa de banho (e de purificação)

«Pelo sinal

Da santa carracha

Suave e dura

Oh doce borracha...»

 

«Foda-se mais estes melros e gralhas s'um no cu leva ambos se esmeram no que berram e berram desatinando-me até os irmãozinhos desta casa que nem no além suportam... Lino! Despacha-te!!» Vacas vestia-se e rodopiava, aqueles cabrões enlouqueciam-no... mas o nosso doce irmãozinho reconhecia bem a prata da casa.

Lechies 

        O pequeno-almoço decorria agora ávido e sereno nem que fosse porque finalmente uma oração, no acérrimo do termo, lhe tivesse dado o início. O café finalizava já a sagrada comunhão matinal na conventual cozinha (senhora de todos os repastos), « Deus nos concede este tão bom produto da terra para descarga de muitos males. » afirmou Vacas saboreando-o golo a golo e em cada trago o seu espírito se acalmava; « ÁMEN! » responderam Borrego e Lino.

O relógio de pêndulo badalou as onze horas do dia de Sábado. Lino, Vacas e Borrego, agora na sala, sentados à volta da grande mesa de tampo de vidro (ao gosto de quem, com tantos poderes, até movi-flores), esperavam em silêncio absoluto a primeira palavra do irmãozinho mas desta vez bem apetrechados de resmas de 'A4' não fosse o diabo tecê-las.

Lá fora o sol irradiava penetrando até cerca de um terço da sala, os odores da primavera já se ajuntavam ao cheiro da terra encharcada pela invernia e os pombos voavam e poisavam tal como cagavam a ampla varanda e do mesmo modo o carro, por baixo desta estacionado, do narrador que vos apresenta este texto... uma caca estranha, granulada ao conjugar-se com os esguichos aquosos ejectados sobre o limpa pára-brisas; bom mas este é outro assunto que mais tarde talvez vos descreva. No entanto e para não Vos deixar ensalivados esclareço que algumas desamarrações sexuais passam por uma actividade sexual oral... Ora, ora , meus senhores nada que não seja acto d'um Suffí tal como d'antes de muitos Essénios. Vacas dobrado como um corcunda não emitia qualquer som e já lá ia meia hora, Lino e Borrego habituados à espera empernavam e se esfregavam acometidos já de algum cio mas sendo a hora d'aquele dia (como a de qualquer Sábado ou Domingo), tão sagrada não se atreviam a excessos... afinal e se os irmãozinhos baixassem a qualquer momento e tal parecia prestes a acontecer... Triiiimm!

A campainha da porta desata num desatino, Lino e Borrego num pulo se prepararam e adestraram para qualquer acontecimento - este tipo de casas têm alguns problemas policiais e excessivos populares, sendo que os servos da justiça normalmente acabam em consultas e os populares em arruaça pura que não passa de merda - o narrador descaiu-se... é do ambiente -, de palavreado de rua. Borrego espreita, como de costume, o ralo da porta e abrindo-a rapidamente exclama « Ah, irmã Lucinda que maravilha... e as pequeninas já estão tão crescidas... que maravilha, que delícia... »; « Ó besta são meninos e não p'rós teus dentes, deixa-te de merdas; quero falar com o Vacas e já! » Lino acode de imediato « irmã Lucinda um beijinho não me nega e o doce irmãozinho p'ràli está... se calhar é falta de corrente... - e em surdina lhe rogou fraqueza - 'Eu t'enguiço pela porta do caniço, que não cresças mais do qu'isso...' . » Lino benzeu-se várias vezes e d'um profundo peito ressoou na sala « Que vaca é essa minada de putos e de hálito impestável que perturba o meu santuário! Na minha casa?! » Vacas levantou-se e numa rapidez incrível torneou os móveis e fixou Lucinda de olhos vidrados « Vá, vá, irmãozinho a promessa há-de ser cumprida, mas só depois dos resultados... ». Saído do transe o doce irmãozinho Vacas exclamou « Ah irmã Lucinda eu sabia, eu sabia que hoje íamos ser muitos... eu sabia. » enquanto no seu íntimo afirmava « ai que porra, como eu sabia... por vezes penso que sou bruxo. » - nesta altura até o narrador deu por si a ler pensamentos doutros.

Ainda não eram catorze horas e Vacas via-se rodeado de queridos irmãos, Borrego e Lino atarefavam-se entre a cozinha e o pôr da mesa... os anjinhos, alguns pequeninos (mas terrestres), deambulavam com o menino Jesus do Stº António, com a espada do São Jorge, com a peruca do Senhor dos passos a quem já lhe tinham gamado a cruz (para seu alívio), « Ai a merda da coroa... esta putalhada fode-me a virgem... Oh Lucinda o teu puto está-me a borrifar o oratório com o mijo do gajo que depois de amanhã vou desamarrar... Ai o meu S. Bento da Porta Aberta... Enfim, nesta costumeira paz de cada sábado em que por acidente demais irmãos se reencontram e ademais se lembram de levar os 'vinde a mim os pequeninos porque deles é o reino dos céus' - esta é boa pró Borrego e pró Lino conquanto sejam pequeninos. - Vacas com um ataque intestinal e após uma certa longa estadia na escusa lá se resignou e assentou-se à cabeceira da mesa.

*

Lino foi para o amplo terraço tomar conta das crianças para que a conversa entre os bruxos pudesse decorrer na paz e compenetração dos deuses e se bem que tinha de entreter aqueles índios estava satisfeitíssimo... sempre era melhor do que enfrentar uma verborreia de dezenas em transe mesmo perante uma óptima acumulação de papel. « Bom a minha alegria pela vossa vinda tem, digamos, o seu preço... não foi por acaso que acendi as dezenas e dezenas de velas aos doces irmãozinhos - benzeu-se -, invocando ajuda dado que na segunda-feira, cerca da meia-noite, tenho uma difícil encruzilhada que exige muita corrente e muita segurança... se a putalhice desses gajos é demais a GNR, a PSP e a judite andam sempre em cima de nós em vez de nas escolas; mas como sabeis a merda encontra-se sempre abaixo, mesmo que se cague a fazer o pino. » Vacas pausou e baixou a cabeça coçando a cabeça. « Oh Borrego quantos é que estamos aqui? » « vinte e um »... Vacas ainda de cabeça baixa alinhou os cabelos laterais, os restantes e Trrriiim. Borrego correu à porta, espreitou o ralo e lívido com o indicador sobre os lábios, larilando de tremuras balbuciou muito baixinho « Dulcineia e Custódia... Ai Ai... », « Abre a porra da porta, irra uma merda nunca vem só... olha a minha querida menina, filha linda que olhos tão cheios de luz e, Oh... os meus netinhos, Ai! já quatro... que lindos filhos de deus e da nossa Virgem Mãe Maria Santíssima, que belezas » e desatou aos brados impulsivos da incorporação « Louvado sejas e Louvada tu também Oh nossa Mãe... a propósito, onde está o cabrão do teu marido... É ele o pai de todos, não é?» Vacas movia-se e acariciava pensando « mais fedelhos, foda-se...» repentinamente gritou «Oh Lino! leva lá mais estas criancinhas p'ró terraço e vê lá não caia alguma; Ah graças aos doces irmãozinhos aqui estás Dulcineia mas e o teu...», «foi comprar tabaco, eu e ele precisamos muito de falar contigo a sós... a situação está um pouco embaraçosa mas nada de urgente; continuem». «Grávida outra vez, quero dizer, de novo?», «não, não se trata disso mas, prossigam nós temos tempo.» Respondeu Dulcineia afirmando a frase que Vacas e todos os demais mais temiam.

Nem durou cinco minutos e todas as gentes com os seus pequenos rebentos tinham desarvorado - nestes casos as bruxas e os bruxos tornam-se vassouras: avoam. «Vamos lá Borrego, o lanche q'os putos e a gente precisa de comer e comemorar.»

Nota do narrador: Será que enveredei pelas histórias dos Cinco ou dos Sete, do cãozinho Tim e da Zé... porra já estou como estes filhos da puta confuso até aos cornos. Merda de investigação!

Borrego alegre, bamboleando-se, atravessou a sala em passo de dança ligeira ao ritmo do pensamento « antes um lanche do que redigir à pressão uma verborreia para A4; queridas resmas...», « Ai, que horror! » gritou já no corredor « Merda mais esta vaca... oh filha o que é agora? » Vacas já se encontrava na quase total exaustão de um sacerdote num confessionário em Fátima nos dias festivo-penitenciais, quanta gente e que bichas... « Uffa que susto; não é nada apenas me parecia uma materialização do além é da luz irmãozinho; o nosso irmão, esposo da Dª Dulcineia, estava aqui cabisbaixo no sofá do recanto escuro do hall. » « Já te pesam os cornos q'até t'enterras no escuro, dá-me cá um abraço meu filho da puta... vem p'ró pé da tua gente. »

O sábado terminou entre recordações, desabafos, reencontros, memórias, desgraças e refeições e às duas da madrugada de domingo um casal com os seus quatro filhos instalava-se no seu novo lar - pensavam -,para desgraça dos fiéis Lino e Borrego remetidos para o sofá cama da sala. O condomínio só tinha três assoalhadas e merda! ainda tinham que pensar como iriam manter aquela puta fora do conhecimento da encruzilhada... já tinha fodido tantas e tantas vezes o doce irmãozinho Vacas. Nem dava disposição p'ró amor quanto mais picha. Mas e Custódia?

 

« Ah! precioso Domingo,

Meu Lino... missa no Varatojo,

Arvoredo, campo verde e

Tojo em abundância,

A veemência ali cede e concede,

Mais q'um pobre pede e...»

 

«Q'a merda todos os dias a mesma porra... olh'òs putos se mos acordas fodo-te.» disse Vacas de cueiros «Novamente doce visão», «vai à merda» retorquiu.

 

Borrego aquecia o motor da carrinha enquanto Lino carregava as coisas necessárias para o piquenique na mata de Stª Cruz, os miúdos já pulavam impacientes apesar do controlo dos pais; aguardavam Vacas que ultimava as orações no seu oratório diante das milhentas e mais incríveis imagens, panteão de santos, santas, virgens e cristos, terminando com a distribuição de beijos afectuosos ao maior número delas, enquanto assim procedia as lágrimas escorriam-lhe pelos olhos « que os doces irmãozinhos nos acompanhem nesta viagem e eu encontre o meio de me libertar de Dulcineia, dos fedelhos e do caralho do marido... amanhã há muito para fazer ». Benzeu-se, fechou tudo cuidadosamente e desceu... a sua entrada no carro foi saudada calorosamente por todos. « Ataque de caganeira não? », « não digas merdas Lino e tu Borrego arranca-me com esta porcaria que quero chegar bastante antes da missa para ir rezar junto ao túmulo do meu querido São Benedito ». Mal Vacas acabara de falar a carrinha arrancou para estacar novamente... Custódia toda aperaltada de negro bem cingida exibindo as doces e indescritíveis curvas tal como as demais formas surgiu repentinamente na esquina da rua « foda-se, só me faltava a puta desta bruxa » pensou Vacas que esboçava entretanto no seu rosto uma ampla alegria que para além de bem estudada já contava muitos anos de prática. « Seus caralhos » disse Custódia com um riso escancarado « ontem não me ligaram nenhuma, nem deram pela minha saída e hoje iam à missa sem mim, sendo tão poucos como é que pensavam conseguir roubar uma hóstia consagrada que fosse... não me digas ó Vacas que não tens p'raí uma encruzilhadazita no mínimo, é que ultimamente pareces andar muito desleixado com aquilo que dá o guito ou estarás aqui como a Dulcineia que de desespero baptizou-se na Maná para salvar o negócio e faliu pelos dízimos; bom pelo dízimo e pela besta aqui do seu maridinho, não é ó Sebastião? » beijinhos à esquerda e à direita muitas palmadinhas nas cabeças dos miúdos, lá se sentou e todos seguiram na paz dos doces irmãozinhos entre conversas cruzadas, cantilenas e outras falas sempre recheadas daquela capacidade da afirmação directa e sucinta que só as caralhadas permitem - raios! não há dúvida que este linguajar se pega... dunqüé, escarrei a mucosidade colada ao céu da minha boca.

Já a carrinha passara o portal da quinta do convento Capuchinho e percorria a trepidosa e serpentiante estrada de terra batida quando Vacas, adormecido como que em transe e ainda de olhos fechados, gritou « Pára! Ninguém saia. » Vacas abriu a porta e contornando a frente do veículo no sentido da esquerda dirigiu-se ao nicho onde se encontra representado em azulejo, por cima de um pequeno altar, o surgimento de São Benedito ali após ter sido degolado em Itália. Benzia-se e lançava beijos aos azulejos, palavreava em surdina coisas que pareciam, pela atitude devota, orações e por ali permaneceu cerca de dez minutos. Por fim, retirou do saco a tiracolo uma vela de trinta centímetros e acendeu-a, pingou a matéria derretida sobre o altar e fixou-a. Recuou e em cada três passos genuflectia lançando beijos com a mão direita e ao fim de repetir três vezes este recuo entrou na carrinha « Sigamos já! » Rapidamente chegaram ao largo anfitrião do mosteiro; as árvores devidamente espaçadas para arrumar vários veículos, a colocação das pedras como que de mesas ou altares se tratassem, os primeiros degraus para o socalco abaixo onde um fontanário natural alimenta um lago contendo toda uma riqueza de vegetação, peixes, insectos, rãs, sapos... tudo monasticamente selvagem e tratado mas acima de tudo contendo muitas criaturas dignas de um louvor bruxulento. Mais uns degraus arcaicos desgastados pelo tempo, pelo andar dos monges e dos peregrinos, como os anteriores e a ampla introdução ao pátio principal do convento surgia perante nós como um recuo de muitos séculos... aqui esquece-se o tempo. Vacas deu ordem absoluta de silêncio e respeito, as portas da carrinha abriram-se e todos em passo contemplativo se aproximaram das portas cerradas da igreja; os fedelhos dispersavam-se à volta do laguinho mas rápida e facilmente foram reunidos como ovelhinhas, tinham tempo para ver todas aquelas maravilhas naturais à saída do culto - o maravilhoso do ambiente fazia-os facilmente entender. Vacas puxou a corrente do portal do templo badalando a sineta três vezes e um monge abriu-o exibindo toda uma doçura indescritível no rosto.

Todos entraram solenemente na Igreja percorrendo rapidamente o corredor central cumprindo todas as genuflexões e junto ao altar mor dirigiram-se ao altar lateral assente no túmulo vítreo de São Benedito... rezaram um pouco e desarvoraram - agora só Vacas e eu, o narrador deste documento, ali permanecíamos em plena contemplação... Vacas chorava e soluçava sussurrando coisas inaudíveis, estava totalmente prostrado. Entretanto já todos os outros tinham reservado o espaço numa posição dianteira mas estratégica, por causa das hóstias. Eu, entretanto, assistia à atitude de Vacas que prosseguia com todo aquele choro, rogo e soluços perante o túmulo vítreo e o altar continha um jovem de beleza rara, um real andrógino... um milagre de conservação do corpo mas que pude constatar facilmente ser uma construção em cera possuidora de toda uma sensualidade que, segundo um monge do Convento, foi enviada para Portugal por um Papa para consolação de uma rainha - obsto-me a pronunciar os nomes destes monarcas porque esta história é hipotética e dado também que muita gente ainda hoje pensa que ali se encontra o corpo conservado de São Benedito.

abracax        A missa terminou, foram acendidas dezenas e dezenas de velas num compartimento adjacente ao do santo, visitaram-se os claustros com os seus jardins, comprou-se algum material do sagrado como terços em osso, terços em sementes, mais santinhos, postais, imagens magnéticas para proteger um veículo em viagem... Vacas só não encontrou Virgens, mas isso parece ser fácil em Fátima...

O matagal circundante à praia do Porto das Vacas definitivamente demonstrou-se ser o sítio para o piquenique, ainda havia que meditar e se algum fedelho se abeirasse o resultado sempre seria definitivo. Sebastião perito em piromania dedicou-se aos grelhados « barbecues, barbecues » gritou Borrego acrescentando « há que dar o nome verdadeiro às coisas, há que realçar o valor e as diferenças », « ó Borrego vai à merda e aproveita para apanhar alguma lenha, sama de pinheiro e pinhas », « que caralho » benzeu-se Vacas « ainda agora se saiu da santa missa e estas putas já me vêm com caralhadas... façam-me lá essa merda de modo a poder meditar nas santas palavras da homília. » Para Vacas tanto fazia mais ou menos barulho mas havia que chegar a acordo com a Custódia de que Dulcineia, o marido e os filhos tinham que ir hoje mesmo para casa porque só lá se poderia iniciar o trabalho de desvio dos credores, paralelamente havia que apresentar a importância da matéria a Custódia de forma a que ela não previsse vantagem da parte de Vacas mas lucro por parte do apoio a Dulcineia.

O piquenique decorria lindamente e o dia já declinava «Custódia, anda cá filha» disse Vacas como se mel tivesse na boca «Não sei se estás a ver bem aquela estrada para Mafra... 'tás a ver aquele cemitério à entrada... bom, há um caminho lateral em que o muro é baixo e junto há um jazigo fácil de trepar mesmo óptimo para amarrar definitivamente o teu Zéi. Agora vê, se levarmos esta gajada p'ra casa que como sabes é em Mafra, enquanto tu tomas conta do desaire do restaurante desta putalhada Maná, sim porque contrariaram a fé, eu vou preparando o trabalho de cemitério e também t'arranjo os corações de novilho necessários, matamos dois coelhos d'uma cajadada e digo-te mais... tenho aí um trabalhinho que te vai render muito, como sabes há épocas e épocas e hoje os doces irmãozinhos mostraram-me como a casa se vai encher de desgraçados... p'ra nós.», «Vacas isso é que é falar já começava desconfiar de que só em último caso é que contavas comigo, porque eu conheço-te muito meu cabrão mas... todos temos defeitos, por isso a merda da reencarnação.» «É impressão minha ou já tinhas preparado o limão e aquele célebre prego que tiraste do caixão quando no inverno passado abrimos aquela sepultura para meter na boca do falecido aquele despacho, é que me desapareceu uma foto dei por falta dela quando fui tratar do BI...» Custódia gargalhou do fundo da alma, arrotou várias vezes e dobrando-se por alguns soluços respondeu

«Assim como eu pico este limão,

Assim pico o teu coração,

Que não possas comer nem beber,

Nem dormir ou descansar,

Até que a mim te venhas confessar.

Pelo poder de Maria Padilha

E de toda a sua família,

Que não vejas Sol nem Lua

Até comigo falares e sob jura,

E a mim sujeitares toda a tua acção.

 

Ai sim Vaquinhas já me lembro, estava num dos cemitérios do Tojal com uma fraqueza a fazer um trabalho, desnecessário é certo, mas algum tinha que ganhar para uma refeiçãozinha e consegui o guito. Comi que nem imaginas, num cafézito de merda, mas comi e não é que me deu um transe em casa e quando dei por mim estava com o material nas mãos e a recitar inconscientemente... não se pode parar e assim tudo fiz até ao fim, mas não repeti. Agora, a tua foto... por acaso não foste tu que ma deste por causa duma questão judicial por teres cobrado algumas centenas de contos a um casal que não eram mais do que gajos do fisco disfarçados? Bom não interessa, mas esse trabalhinho nunca mo pagaste e, olha, também já esqueci.» Custódia gargalhava, soluçava e arrotava que nem uma perdida e a custo controlou-se «Bom, combinado! Mãos à obra porque o meu dinheiro extingue-se, eu faço a minha parte agora mesmo e tu... ai de ti desgraçadito falha-me e estiro-te como fizeram ao São Benedito.» E ria, ria tanto que Dulcineia apardalada com aquelas falas em surdina alternadas por aquelas manifestações ruidosas cuidou haver desaguisado, os dois nunca se deram bem «Então irmãzinha algum problema?», «Não, querida é tudo tão evidente que ao olhar a areia da praia os doces irmãozinhos mostraram-me o caminho para vós... vá, arrumemos tudo e partamos já para Mafra. Ali comeremos e pernoitaremos em vossa casa porque ainda esta madrugada vou dar início a um trabalho que se os irmãozinhos permitirem, os de cima ou os de baixo, vos libertará das dívidas... lá falaremos, mãos à obra já!»

Nota: «...ou os de baixo...»; o narrador tem a certeza que se reporta aos do inferno, uma vez que eticamente lhe repugna a ideia dos australianos.

 

 

Já a carrinha se dirigia par a saída sul de Torres Vedras quando ao passarem pelo portal do Convento do Varatojo Vacas exclamou «afinal quantas hóstias arrebanhámos hoje na Sagrada Comunhão?», benzeu-se, «cinco meu amor e estão todas direitinhas, bem guardadas, sem qualquer falha.», «então dá-mas carago, porque hoje mesmo terão que ser colocadas cada uma em sua caveira para manter e aumentar o poder delas...», «'tá bem cabronete impaciente - retorquiu Custódia agora e como sempre a guardiã do sagrado confiscado -, mas primeiramente uma jurazinha bem jurada não te vai fazer mal nenhum porque de boas intenções... olha é por onde todos temos andado.» «É pá, não me fodas...», «ai que o vaquinhas está parvo, até parece que não conheces a tua doce irmãzinha... », «Ai q'u vidente não vê!», gargalhou Lino, «ai que te arrebento com o quarto olho...» retorquiu Vacas. Os putos riam que nem uns perdidos e de tanto rirem iam adormecendo, cada um tombava nos braços dos anjos e a carrinha prosseguia para sul em direcção à entrada norte de Mafra. Entre conversas cruzadas, arremessos de maldições humorísticas, cantilenas e outras formas relaxantes Sebastião lembrou-se «Mas em casa não tenho nada para...», «ouve lá e entre as pernas o que é que tens?» perguntou Borrego rindo e meneando-se fazendo dançar a carrinha com o volante «ó caralho vê-me essa condução e tu ó besta não me venhas com nevoeiros pois disso já eu sabia... não fora assim não me tinham aparecido lá em casa cabismudos; olha que sempre entras mudo e sais calado.» O riso geral deu entrada em Mafra e durou para além do desvio para a Ericeira em cuja uma das terrinhas depois de Paz - só podia ser -, a casa de Dulcineia e o malfadado restaurante se localizavam.

«Creio em Deus Padre

Criador Todo poderoso;

Fui à serra,

 

Cacei um esposo.

Ia par'diente

Vi um ror de gente;

Vim para trás,

Convenci um rapaz,

Dei-le um abraço

Ficámos em paz.»

Borrego cantarolava de barriga cheia, já iam para casa e o descanso de tanto trabalho era mais do que merecido... e Lino em contra canto

Amduscias 

«Se eu fora a Stº Tirso,

Ao seminário dos meninos,

Converteria esses cristão sem vício,

Ao conhecimento repleto,

Do ofício divino do prazer completo,

Q'us abraços e os beijinhos,

A estes carentes negado,

Só possuem o férreo do padre,

Seja a dormir ou acordados...

Carinho que nem um pastor nega ao gado.»

 

«Foda-se, levo comigo o Sacratíssimo... mas isto é doença, dantes era só de manhã e agora é até à noite plena... até eu já ensaio rimas; calem-se e deixem-me em silêncio preciso de meditar porque hoje já nos livrámos dum terror, não quero p'rà manhã um terramoto. Há muito p'ra fazer caralho.» e como falou tombou p'ró lado dos deuses... Vacas era assim e por isto amado por todos e temido por muitos mais.

        A segunda-feira amanheceu cansativa e Borrego quasi em surdina cantava na cozinha

«Alcachofra do amor,

Onde se pinta a vontade,

Por me saíres florida

E me abusares com liberdade,

Porque quem cala consente...

(Só não reconhece quem

não é filho de boa gente);

Ai as abas do teu telhado

Tão vermelhas de virtude

Entrei nelas agachado,

Logo me alcei de saúde.»

 

Borrego lembrou-se do dia cansativo que os esperava e «ai! que tanto é o viço que o cantar está em mim como a dor p'ró noviço, eu de prazer e este pela ausência...» É o falso da aparência... mas será que o narrador já rima, isto definitivamente pega-se. Bom, desta vez Vacas complacente ou surdo de sono nada rosnou só que Lino levantando-se desatou em puro gozo aputalhado

«Assim como eu depeniquei esse limão,

com as cuecas na mão e arregaçado o tive,

Até ao pico do teu coração alçado e a pique,

Bebemos o mel e dormimos nos embalos...»

 

«Ó cabrão, também tu... ai que hei-de descobrir os textos dos enguiços de criar calos na picha e no cu.» Vacas, estremunhado dirigiu-se à casa de banho praguejando obras da arte.

«Irmãozinho», berrou Lino, «tanta gente, são muitos... e o trabalho que temos para hoje é demais.» Borrego, ainda mastigando o último pedaço do pequeno-almoço abriu logo a porta e as pessoas como tufão entraram ficando a maioria espalhada pelas longas escadas na espera. Vacas comia calmamente na cozinha e não ligando à histeria de Lino voltou-se para Borrego acabado de entrar «porventura sabes o que fizeste sabendo o que se tem para fazer hoje?» Vacas perguntava com a certeza absoluta da resposta e da utilidade dela «Irmão, vamos começar um trabalho duro e eu só posso coordenar estou cansado demais para cozinhar, organizar e manter a ordem, fora outros percalços que possam surgir, daí que m'alembrei seguramente, por via dos irmãozinhos, de deixar entrar toda esta gente sabe-se lá quantos poderemos recrutar para esta noite... sempre é matéria para doutrinação. »

«Bravo! Iniciemos o dia... ó merda e o mijo do gajo a desamarrar hoje que os putos bisnagaram por todo o lado» Borrego sorriu «irmãozinho 'onde estiver dois ou três Eu estarei no meio de vós'...», «'tá bem e depois?», «Ora eu e o Lino durante a noite mijámos p'ra dentro desta garrafa... 'tá feito.», «Porreiro e deixemo-nos de merdas, mãos à obra!» Vacas entrou circunspecto no corredor olhando cada pessoa como que antevendo para cada um mau presságio... la noblesse oblige e estacou na sala sentando-se sobre o sofá. Após alguns minutos de ausência, ou pelo menos de olhos fechados gritou «onde estão os caralhos p'rà encruzilhada e o putanheiro p'rà desamarração... vocês cozinha e tu fica aqui; Lino!» A ordem foi cumprida militarmente ficando os ruidosos (e roedores) contadores das suas penas comparadas em absoluto silêncio.

Na cozinha Borrego atarefava-se em reger a orquestra das refeições para a noite da encruzilhada, só quem a queria é que a podia confeccionar, Lino na varanda dianteira acendia a fornalha para a desamarração enquanto Vacas atendia pessoas... por causa do Karma e das putalhices (Dharma), executadas nesta vida.

 

 

Panelões, panelas, tachos, caçarolas, frigideiras, cataplanas e sei lá que mais, de todos os tamanho em ferro em barro e em cobre um ror de copos, pratos, pires, travessas grandes e pequenas, enfim tudo o necessário para uma refeição principesca e cada conjunto adquirido pela pessoa necessitada que ia pactuar na encruzilhada, tal como guardanapos e toalhas de mesa de linho... aquele sector da enorme cozinha parecia de um restaurante de cinco estrelas. À La Carte havia todo um conjunto de mais ou menos complexas refeições dependendo estas da maior ou menor gravidade do problema de cada um ou de toda a sua família, neste último caso só uma pessoa pode participar na cozinha enquanto que na encruzilhada parte ou a totalidade da família pode assistir, mas quem cozinhou é que representa e actua. O sangue é fundamentalíssimo e deve ser usado na elaboração dos pratos na directa proporção da gravidade dos casos, daí a bordalesa, a cabidela, os rojões cozinhados no sangue do porco e, por exemplo, a raia mas só com a fêmea na época da xica.

Cada pessoa tem que confeccionar sete pratos, primeiro a sopa, normalmente de feijão com hortaliças e batata, em segundo o prato de peixe que será acompanhado de um vinho banco verde muito bom, depois vem um arranjo de queijos num base de pão como transição e serve-se com uma cerveja média branca ou preta dependendo isto do problema em causa, em quarto temos o prato de carne sempre servido com um bom vinho verde tinto, em quinto vem a doçaria que varia em qualidade de acordo com o desejo do ofertante e este nunca se deve esquecer que os doces irmãozinhos têm que ficar muito bem satisfeitos se não é uma bronca; este prato é acompanhado por uma garrafa de champagne bruto. Em sexto vem uma maravilhosa salada de frutas regada com vinho da Madeira ou do Porto, se regada com vinho da Madeira leva-se para a encruzilhada o restante na garrafa acrescido de uma garrafa de Porto e ao contrário a mesma coisa. Por fim vem a delicada confecção de cerca de um litro de café fortíssimo, que será acompanhado por uma garrafa de óptimo cognac e uma caixa de madeira de bons charutos com uma caixa de fósforos de cozinha porque só destas é que eles gostam.

Cerca de três dezenas de pessoas atarefavam-se mas com todo o esmero na preparação da divina refeição, Borrego comandava com toda a maestria... este homem era dotado de uma tão grande eficiência que contagiava e se alguém lhe dizia nunca ter tido jeito para a cozinha ele meneava as doces nádegas e em constantes apaneleirados trejeitos punha a cozinhar este mundo e o outro com a doçura de um beijo... e cantava

«Catro com cinco são nove,

Com mais nove são dezoito,

Com mais seis vint'icatro,

Com mais catro são vint'oito.

Há três dias de janta,

E há cinco pró almoço,

Eu canto e o amor renovo,

Trago a calma a todo o peito,

Sei que o sofrimento é daninho,

Que no coração a sua raiz s'implanta,

Deu-me Deus o condão do carinho,

Para dar vida ao q'ensino,

Mesmo sabendo que sou merda de gozo...»

 

Lino entra de rompante pela cozinha «foda-se... não ma metem noutra», trazia seis galinhas e um galo negro agarrados pelas patas «q'a merda a fornalha ainda vá lá mas isto? Ia levando chumbada no cu...». dirigiu-se ao terraço e começou a contar as passarolas gamadas... porque o que é roubado é o que os doces irmãozinhos mais apreciam. «Lino querido acalma-te meu amor eu sei que esta madrugada te foi pesada de roubo mas... », « porreiro » gritou Lino « já cá cantam todas uma por cada um destes desgraçados e os galos... tudo tão preto. Ai meu borrego...»

Antes das dezassete horas e trinta tudo na cozinha estava realizado; a casa de banho parecia um velório pelo amontoamento de flores no bidé, banheira, lavabo e alguidares, o quarto do Vacas estava inundado de castiçais, velas pretas, vermelhas, pretas e vermelhas e círios, a sala... bom, exalava um cheiro a mijo, carne de porco grelhada e queimada assim como ao hálito quente do chumbo derretido na varanda da fachada; claro que os vizinhos não necessitavam de televisão... Vacas deitou velas na fornalha para culminar as desamarrações elevando as labaredas « até à casa do caralho, bem, do mar coalhado que todo o mal p'ra lá vá e qu'estes irmãos se libertem » e por ali tudo também cessava entre credos em cruz, ave-marias, padres nossos, caralhadas e glórias ao pai - o narrador sabe que não vale a pena justificar mais a sua redacção... a sarna do paleio já a tem e o ácaro da linguística tornou-se aftas na ponta da língua... assim seja.

 

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